quinta-feira, 1 de março de 2012

Baseado em fatos reais



Clara estava com Juan agora. Ele lhe fazia bem quando estavam juntos, riam, falavam bobeiras, mas ela sentia que faltava algo, faltava aquele sentimento de frio na barriga, nervosismo, deleite. Faltava o que sentia ainda por Miguel e Gabriel. Era diferente, nuances ou facetas diferentes de um mesmo sentimento: amor. Sim, amava dois, ao mesmo tempo e sempre. Miguel agora era só o amigo; quem povoava mesmo a mente de Clara, bem nos momentos em que estava com Juan, era Gabriel, um veneno, um feitiço. Fora tão pouco tempo, mas o suficiente para implicar num amor desmedido e comedido, um amor que não passava, mesmo que agora, depois de 2 anos de tentativas frustradas por parte de Clara, Gabriel arrumara uma namorada. De longe. Mudava a vida aos poucos por ela. "Por que não foi assim comigo?" E doía pensar que fora, simplesmente, porque ele não a amara, ou não quisera, ponto. Era injusto, era cruel, mas era e é fato. Clara tentou uma vingança, mensagens em redes sociais, mas saiu ainda mais machucada. Doía tanto, e doía pensar que Juan podia estar gostando dela. Um menino começando a vida, e ela uma mulher sem saber bem pra onde ir.

Quem sabe num dava certo, não é assim, um amor pra esquecer outro? Mas Juan estava longe de ser amor, nem mesmo paixão era. Clara se sentia mal; era bom no momento, mas sentia que estava usando Juan somente pra saciar sua carência física, nada mais.

Já não tinha mais aquele amor sofrível por Miguel. Eram amigos, amigos com um quê a mais, mas estava tudo muito amenizado entre eles, sobretudo porque não se viam já há algum tempo. Mas em relação a Gabriel ainda estava naquela fase do amor sofrível, sofrido, inveja, ciúmes, dor, mágoa, tristeza... Lembrava dele quando abraçava e beijava Juan. Quando só, lembrava dos pequenos momentos de alegria com Gabriel, momentos pequenos mesmo, mas tão significativos. É, esses "detalhes tão pequenos de nós dois" é que matam... E doía ter quase certeza de que ele não devia lembrar mais.

Clara tentava evitar, mas acabava comparando Juan com Gabriel, talvez não comparando, mas lembrando de como era bom estar com alguém que se gosta. Gostava de Juan, mas um gostar bastante superficial. Não era o mesmo, a mesma coisa. Não sentia nervosismo, não sentia aquele prazer único de beijar a pessoa, de estar ao lado, admirar o sorriso, o olhar, tudo... Juan olhava pra ela com certa admiração. Encontraram-se e ele disse que adorava aquele olhar dela, nem sabia explicar por que... Clara gostava de se sentir assim desejada, ainda mais quando Juan dizia coisas ao pé de seu ouvido, frases quentes pela noite afora... Clara ouvia, se excitava, se deixava tomar por ele, mas ainda assim faltava aquele sentimento romântico que aquece ainda mais esses momentos. Faltava o amor que sentia por Gabriel, faltava a amizade e cumplicidade meio mística que tinha com Miguel, faltava... enfim, faltava amor, e Clara não sabia se dizia não quando Juan ligava ou se deixava levar, mas por enquanto era a segunda opção que perdurava, o corpo mandava, mas o corpo também sentia tanta falta de Gabriel, a pele, o sorriso, as bobeiras, as mensagens de cel à noite, anjo... De repente ela se sentia um demônio. O jogo virou tão rápido, ela não se dera conta, como foi, o que houve, que fizera de errado? Amara demais, assim, espontâneamente. Por que isso não aconteceu com ele, por que, céus, havia tantos por quês!! Tanta coisa que Clara ainda gostaria de esclarecer, olhar nos olhos dele, perguntar, mas nem isso ele permitia...Se simplesmente não a amara, ela simplesmente não aceitava isso sem justificativa, e ele simplesmente a ignorava e ela simplesmente não sabia o que fazer, se é que haveria algo a fazer. Não havia. Havia linhas a escrever, paciência e amor a se esgotar, mágoas e mais mágoas se acumulando... Era tanto sofrimento cego e solitário que Juan se tornava um bálsamo, apesar de curar somente as feridas mais visíveis, mais superficiais. Por que Gabriel, por que? O que eu fiz pra merecer tanta indiferença, ela se perguntava. A resposta que ouvia era o som do ventilador pra lá e pra cá e os carros na rua, além dos tic-tics das teclas do notebook. Ponto.


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