sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Expectativas


Todo ano, seja em outubro ou dezembro, natal, guardo ainda aquela expectativa infantil: a do bolo, do presente, da festa, das pessoas sorrindo, felizes porque eu estou lá, feliz também, por mais um ano, por mais um natal... Guardo ainda a vontade de bolo infantil, brigadeiro, presentes bem embalados, brincadeiras, parabéns, happy birthday, q=com quem será, etc. Vontade reprimida, claro, pois todos quando crescemos somos impelidos a internalizar a criança que ficou pra trás, com traumas e tudo. Ser adulto é receber essa mensagem de si mesmo e dos outros: se vire, supere, continue bem ou mal. Mas a criança anda batendo à minha porta avora, ainda mais porque vou ser mãe: estou fragilizada e lembro da minha infância. Da barbie usada que ganhei já tardiamente, e outros brinquedos usados, uns poucos novos, a expectativa de presentes que nunca vieram, promessa feitas e nunca cumpridas pelos adultos. É bom lembrar disso pra que eu não cometa o mesmo erro. Por mais que cresçamos e superemos, a marca fica, a lembrança da dor. Tenho muitas, umas porque os outros erraram comigo, outras porque eu era uma das crianças mais tímidas do mundo, e isso a sociedade não perdoa, ainda mais em adultos. Timidez, traço de personalidade, ainda tenho. Claro que com toda a experiência de uma vida, aprendemos a nos comunicar, a falar, a agir nesse mundo. Mas aquele dom de ainda se constranger com coisas e situações tidas como comuns é muito nosso, dos tímidos. A capacidade de pensar em coisas brilhantes que poderiam ter sido ditas em um determinado momento e não o forma... e essas coisas brilhantes vindo sempre minimamente uns 10 anos depois, oh capacidade! A habilidade de estar com ódio de alguém e agir com total sangue de barata, sem explodir, ainda que amaldiçoando internamente até a décima geração dessa pessoa; a capacidade de remoer, do orgulho, de se achar melhor ainda que não dando o mínimo sinal disso, de ter respostas certas e prontas e nunca conseguir usá-las na hora que é pra usar, pra falar... ah, ninguém entende a agonia de um tímido autêntico. professora tímida? Totalmente. A incapacidade quase que total de comunicação fluente sem gaguejar, ah... nós, os tímidos. Ou vagotônicos, como diria Vinícius de Moraes. Aliás, ele completa centenário agora, não sei que dia e se de morte ou nascimento. Ah, minha outra agonia - a de uma vida inteira - é a desvalorização da literatura. Estou viva e poetizo, mas quem sabe, quem nota, quem gosta? Já tentei a prosa, mas nunca passei de um conto, não flui. Fadada estou ao reconhecimento póstumo. Pesquisava esses dias sobre publicação de livro, que não é difícil, porém seria publicação, distribuição entre família e amigos e vender o restante, ponto. Não... e a minha carreira literária? Porque ainda sonho. Ah, expectativas que se assemelham às da infância... Adultos não ligam pra isso e talvez eu seja das poucas que liga.
Feliz dia das crianças, assim, adiantado. :)