quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Ensaio sobre a pobreza



"Eu só quero é ser feliz
andar tranquilamente na favela onde eu nasci
e poder me orgulhar
e ter a consciência que o pobre tem seu lugar"

Sempre declarei em alto e bom som que sou pobre. E o que é ser pobre? Envolve muita coisa, tal como falta de acesso à uma determinada sociedade/cultura que frequenta teatro, desfiles de moda, museus, livrarias renomadas, tardes de autógrafos, cursos gastronômicos, de decoração, de moda, festas badaladas, música erudita, se veste bem (roupas caras das marcas consideradas melhores), mora bem (mansões, de preferência, ou modestas casas recheadas de bom gosto, que seria ter bons móveis do tipo vintage, que agora estão na moda), porta-se bem à mesa, fala inglês fluente e domina seu idioma além de uma ou outra língua, entende de música, lê poesia, pode falar dos mais variados assuntos, dentre outras características. Bom, mas isso tudo acontece do outro lado também, talvez com menos requinte, mas os chamados pobres ou favelados tem tudo isso de sua própria maneira, mas que não é validada pela sociedade e por isso são também marginais - vivem à margem, sofrem preconceito sobretudo por seu modo de falar. 

Moram geralmente em favelas, ou bairros mais modestos. Casas de material barato, ou mesmo barracos - já morei em um - que não são nem de madeira mesmo, óbvio, mas de taubas com teiado em cima. Muitas vezes tem TV, DVD, home teather, até carro, mas as condições da casa são precárias. As casas Bahia facilitam esse ter sem olhar à sua volta. A sociedade os direciona para cursos profissionalizantes para que sirvam de mão de obra não-reflexiva. Dão-lhes cursos técnicos e ENEM, Prouni pra que entrem de preferência em universidades privadas e continuam a servir de modo prático à sociedade. O ensino da escola pública não os ajuda a pensar, a se desenvolver de modo não a desprezar a comunidade em que vivem, mas a pensar em seus próprios direitos à moradia, vida digna, ensino de qualidade, direito de ir e vir nos vários ambientes, direito de todo ser humano. Sofrem por muitas vezes se adequarem áquela sua realidade e viverem tal qual suas ruas de esgoto á ceu aberto: não são todos, mas a higiene pessoal de alguns é... lamentável. As meninas acham normal engravidar sem compromisso algum, aos 12 ou 14 anos - não, por favor, não quero pensar que têm casos de meninas com menos de 12 anos grávidas - e acham normal ir ao baile funk com vestidos superhipermega apertados ou sainhas curtinhas e sem nada por baixo. A sexualidade é bastante desnvolvida, mas questionamentos não. Aí vem um pessoal e leva o funk pra televisão, com ares de canções romãnticas - ou não - e declara que funk é bom, as patricinhas começam a dançar funk nas boates de luxo das grandes cidades. É, tem um movimento dos que podem em direção aos que não podem no intuito talvez de ajudar, mas tem um problema aí: pobreza não é circo.

michael jackson veio ao Brasil e gravou junto com o Olodum a música: "They don't care about us". Virou circo, o turimso deve ter aumentado bastante, como se todo aquele povo fosse daquele jeito, estivesse ali tocando latas e tudo mais pra divertir o mundo, os ricos. Isso é a vida deles. Num é um dia de pobreza, mas somente um de princesa, quando o mundo assiste o clip, olha realmnete existe gente vivendo nessas condições... isso é a vida deles. Não digo que nós, sociedade letrada, temos que salvá-los, pobrezinhos. Mas temos que mostrar que há outros caminhos, sobretudo em questões que envolvem saneamento básico, controle de natalidade, moradia. 

Na televisão, houve uma vez um comecial que falava de bolsa-família, eu creio, e o cara, pai de família, dizia: "é, agora dá pra comprar uma carninha no final do mês", e ria. Ora, pelamor, todos temos direito a uma vida digna e é isso que tem que ser divulgado, ensinado, fomentado entre os ditos pobres. Os ricos ou médios já sabem disso e usufruem de tudo. É absurdo um pai de família, com pelo menos três filhos, ganhar um salário mínimo. Viver é muito caro! Pra que eles não vejam isso, o governo fica criando essas baboseiras de bolsa-família, bolsa isso, bolsa aquilo, pra que tenham a ilusão de estar vivendo melhor, ora bolas. Migalhas, mediocridade. Os governantes tem salários tão bons meu pai, e ainda tiram daqui e dali. É isso que os pobres e as pessoas no gerla tem que ver: se eu reflito, se eu tenho acesso a detreminadas informações, eu posso votar de forma consciente e honesta, e não porque o fulano de tal vai continuar com a bolsa isso, ou bolsa aquilo. É mais fácil viver assim, com todo mundo te dando coisinhas aqui e ali... 

Sou pobre. Dependo da saúde pública - ou seja, é melhor que eu não invente de ter um câncer ou qualquer coisa mais séria. Dependo de salário que está pouco, por uma série de razões - ser professora é uma delas. Estou há umas dias semanas sem um centavo no bolso. Duvido que alguém da classe média ou mais alta tenha noção do que é isso. Morei em condições bem precárias e, graças a uma educação melhor por parte de meus pais (não é escola particular nem livros caros, nem nada disso, mas educação de berço, pautada por principios morais religiosos) tive o prazer de poder sonhar e realizar o sonho. Contra a maré, estudei e estudo numa Universidade Federal e isso me faz estar num patamar privilegiado da sociedade brasileira, os 11% com curso superior (ainda é tão pouco assim??) e também por conta disso, estou procurando ser menos preconceituosa com a forma pobre de se viver, mas não é pra mim. Acontece que níveis mais altos também não o são. Estou na situação de Margaret Brown, a nova rica de Titanic: ela ascende à classe A, está em um navio luxuoso na primeira classe, senta-se à mesa com os ricos, mas ainda assim é mal-falada por eles, sofre preconceitos. Nunca será um deles. 

Bom, e por que um "favelado" teria que estudar mais, fazer uma faculdade federal ou afins, se o mundo dele não pede isso?

Não sei. São felizes os pobres... são felizes os ricos... são felizes letrados e desletrados... Tenho a impressão de que, quanto mais conhecimento, mas loucos ficamos e distantes da realidade. Como os professores que acreditam na mudança da escola pública, escrevem sobre tal mas nunca deram aulas lá. Pra mim isso é incoerente. No plano das ideias tudo é possível, acontece que na realidade tem mil outros fatores a serem considerados, e que muitas vezes atrapalham ou mesmo impedem a mudança.

Enquanto isso, a minha gata, que é pobre e é tratada como mero animal, e não uma criança, cuida de seus rebentos. Cinco! Porque ela não tem televisão. Bom dia!