sábado, 11 de setembro de 2010

Alegria

- vixi, moço, meus poemas andam meio quebrados.

- ih, moça, como é que é isso?

- eita moço, tu num é consertador? tem jeito não?

- oxe, vamu ver, dona moça! hmm... a senhorinha vai ter q trocar essa morosidade por mais ação, essa alienação por mais pé no chão, e esse coração meio partido aí por um outro, num sabe?
 
- ah, seu moço, coração é peça cara! meus puemas...

- olhe, moça, ve se num compensa comprar ja um coração novo, hein! esse seu aí deve di tá já pela tábua da berada! tem remendo por demais nele!

- mas seu moço, ..é ta bem remendadinho mesmo, num é? causa de que a vida é assim mesmo, moço! meu coração num bate mais não, moço, só apanha!

- vixi, moça, o causo é sério! ói, só pra senhorinha ver q eu lhe tenho istima, leve esse frasco aqui, vice?

- eita, seu moço, que qui tem ai nesse vridrinho?

- é aligria, moça, a mais puderosa arma pra renovar o coração. Aí eu axu que seus puema vao se renovar tbm, num sabe?

- oxe, moço, bão d+! agradecida, seu moço, muita gradecida!

- me traiz um de seus puema depois dona moça, pra pagar eu e me dar umas aligria tbm, vice?

- oxente, trago sim, seu moço, trago sim! gradecida!


A Morte que o quase me causa

Quase...

Luiz Fernando Veríssimo
 
Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas ideias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance; para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Boa noite.