quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Receitas


Tenho ideias amargas. Acordei depois de uma noite de calor intenso sem vento e cheio de pernilongos e aí meu humor, que normalmente já não é bom, piora bem. Não quero filhos, quero uma criança pronta, já andando e falando, sem eu ter que carregá-la e amamentá-la... quero presentes de natal, livros, agenda, dinheiro sobretudo; quero acertar sempre e ter controle de tudo sempre. Quero viajar mais e ser mais autosuficiente, dependente somente dEle; estar mais perto dEle e não ter memória. Gostaria que fosse possível eu morrer, de fato ou metaforicamente, no último dia deste ano e, dessa forma, nascer no dia primeiro sem memória dessa outra vida que me foi dada até 2012, ano caótico. Me anima os inícios de ano, ao menos naqueles dez segundos da contagem regressiva. Depois é sistema: trabalho, salário, aperto, contas, brigas, amor e vamos que vamos... é um ciclo interminável; sempre acho que algo mágico vai acontecer, mas não existe essa mágica... existe a força de nós mesmos e a minha incredulidade em mim mesma; que a minha credulidade e fé cresçam cada vez mais nEle. Isso é um dos focos e desejos para 2013. 365 oportunidades, apesar de que não gosto dessa palavra...

Partilharam no fb:
"... eu creio que a senhora sonha talvez demais. Sonhará uns amores de romance, quase impossíveis? digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir." 
E eu penso no que há de errado em sonhar seu Machado... gostei não. Sonho alto, mas rio de mim mesma e dos sonhos alheios, parecendo ser pé no chão, mas nem sou. Tenho asas internas. Prefiro a beleza do sonho-receita de Drummond:
Receita de ano novo
 
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
 
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Mas é que o Ano novo dorme profundamente dentro de mim, desde sempre, e recusa-se a acordar, tal é o conforto em que se encontra ... o espaço do sono é o melhor lugar desse mundo. Adormeçamos, pois.