quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A professora que chorou


Era uma pessoa comum, com uns sonhos aqui e ali, irrealizáveis se dependessem de seu próprio bolso, destino ou sorte. Amava a escola, mas dizia decididamente que professora não seria. Aturar todos aqueles alunos torrando a paciência? crianças, adolescentes e adultos melindrosos? Não!! ela dizia... Mas quis o destino - azar, sorte, fortuna? - que gostasse muito de inglês, que escrevesse desde os doze poesias, que sonhasse em publicar livros; que, enfim, escolhesse Letras e consequentemente a profissão que não: professora. Fez-se uma, por certo. Foi se amoldando, colhendo conhecimentos daqui e ali, gostando e aperfeiçoando o inglês. O intercâmbio não lhe foi possível, mas foi vivendo. Tinha a estranha e ingênua mania de acreditar nas pessoas: acreditava que podiam aprender inglês em qualquer idade; que era possível ensinar bem em um a escola pública; e acreditava na verdade primeira das pessoas, naquela primeira versão que diziam das coisas, ainda que mentiras... Acreditava, sobretudo, que ganhando a amizade dos alunos, aprenderiam. Acreditava no respeito.

Suas crenças não se abalaram até a tarde em que chegou para mais uma aula no curso em que trabalhava. estava visivelmente cansada, e cansou-se ainda mais vendo os alunos conversando, olhando facebook pelo celular, fazendo tudo menos participar da aula. Ao ser indagada por uma aluna por que daquela cara, a professora disse que estava cansada, cansada de sempre falar as mesmas coisas com os alunos e não iria mais repetir. Continuou sua aula apesar das conversas paralelas, as fofocas, os risinhos. Havia um exercício em que os alunos deviam associar adjetivos a certos lugares. Ao dizerem bom e ótimo para roça, a professora, em tom de brincadeira, perguntou: "mas o que tem de bom nessa roça, gente? Roça num tem nada! o que tem de bom lá?" "Minha família uai!" disse um aluno em tom brusco, como se óbvia fosse a resposta, ao que os outros cochicharam um "tome" " hein, se lascou" e coisas do tipo, além dos sinais com a mão. Aí alguma coisa ruiu. A professora sentiu-se uma formiga e, ironicamente, desculpou-se pela pergunta. Mas foi mais do que vergonha e humilhação o que a resposta e os risinhos e os deboches lhe trouxeram. O fato atingiu suas crenças nas pessoas. Aqueles adolescentes pareciam não querer viver, ou só viver dormindo, ou brincando, isso durante a aula, sempre. E, num outro exercício, responderam "school" (escola) para a pergunta qual era o pior lugar pra se visitar. Aí tudo ruiu de vez ou, ao menos, pôs a professora pra pensar, repensar sua prática, sua vida, suas decisões. Isso depois da enorme tristeza que sentiu na hora, e foi lhe brotando dos olhos, tanto é que ela pediu licença e foi ao banheiro. Chorou. Lavou o rosto, disfarçou o melhor que pôde e conseguiu finalizar sua aula. Triste, muito triste. Alguma coisa se partiu ali, e ela sentiu que foi o respeito, o respeito que sempre mantece pelos alunos, ainda que com brincadeiras, eles não retribuíram. 

Tinha feito errado de ser assim? De ser a amiga-professora e não ter imposto limites rígidos como o fazem alguns? Em que tinha errado? Se não tivesse que terminar a aula, por certo choraria mais um bocado. Quando a aula terminou, não havia mais lágrimas, só uma tristeza profunda. A prova final da universidade e ter esquecido o celular no trabalho não significaram nada depois da quebra do respeito. O que fazer?

Espero não ouvir nada como "bem-vinda à realidade!". Acredito, ainda. Estranha e ingenuamente.