terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O Estilete


"O coração de uma mulher é um oceano cheio de segredos"
Rose, Titanic


 O ESTILETE

Prólogo: Pensei que ontem usaria pela prima vez meu estilete em carne humana. Por um segundo não foi porque não lembrei-me dele.

ATO 1
CENA 1 - O devaneio que se torna real
Personagens:
O Duas Caras
A Namovaca do Duas Caras
Doida Summer
Bus Driver
Funcionário
Conhecido
O Coro - que podem ser um bando de Tirésias, o gato de botas ou preferencialmente o gato de Alice, Lúcifer. 

CENÁRIO
Terminal Rodoviário Tietê. Doida Summer chega à Rodoviária, vai para sua plataforma e depara-se com Duas Caras e a Namovaca. Estão de costas. Doida Summer para bruscamente, suspira, segura firme a mala em riste e passa feito trator por eles. Ouve a Namovaca:

- Nossa! (voz estridente de loura-burra).

Doida segue para a fila de bagagens de baixo, pedindo desculpas às pessoas do outro lado em quem esbarrou. Olha furtivamente para trás, seu olhar se encontra com o da Namovaca-loura-burra. Doida entrega a mala ao funcionário:

- Só?
- Só - Doida diz quase sem voz, mais com a cabeça. Quando vai guardar o papelinho entregue pelo funcionário, percebe que está tremendo descontroladamente. Vai agora para a fila de entrada no ônibus, fica quase ao lado de Duas Caras e Namovaca. Cumprimenta um conhecido e se coloca na frente dele na fila. O inconsciente pede pra se afastar dos dois lá. Ao perceber o equívoco, desculpa-se:

- Opa, desculpa! - e sai, colocando-se atrás do Conhecido.
- Não, tudo bem, estou esperando um amigo... - diz o Conhecido. 

Doida então volta ao seu lugar. Ainda treme vertiginosamente. 

O gato Lúcifer - "Quanto a mim, os meus pés quase resvalaram; pouco faltou para que os meus passos escorregassem. Pois eu tinha inveja dos soberbos, ao ver a prosperidade dos ímpios...Eis que estes são ímpios; sempre em segurança, aumentam as suas riquezas. Na verdade que em vão tenho purificado o meu coração e lavado as minhas mãos na inocência, pois todo o dia tenho sido afligido, e castigado cada manhã. Se eu tivesse dito: Também falarei assim; eis que me teria havido traiçoeiramente para com a geração de teus filhos. Quando me esforçava para compreender isto, achei que era tarefa difícil para mim..." E o gatosorri, sumindo.*

Ao  deparar-se com o Bus Driver, Doida entrega as passagens. Bus Driver confere e devolve:
- Ok, tudo certo, boa viagem!
- Posso perguntar uma coisa? Suspietos podem viajar? Acho que já vi a foto deles na televisão ou em alguma delegacia e...
- O que, como? - diz o Bus Driver, meio rindo, meio querendo entender
- Suspeitos podem viajar? - Doida indica os dois - o grandalhão ali com a garota - e entra no ônibus.

CENA 2 - No ônibus
Doida
A Senhora
O Senhor
O Marido, A Marida e a Prole


Doida continua tremendo e precisa se segurar nos frágeis e pequenos corrimões da entradinha do ônibus. Ao chegar na sua poltrona 35, se depara com uma senhora e um senhor lá sentados:

- A poltrona da senhora é 35? - pergunta Doida. A senhora parece não entender, resmunga qualquer coisa. 
- Acho que a passagem da (sua) mãe está errada - diz A Marida. O Senhor confere.
- É, a minha é a 4... - e uma confusão de comentários entredentes se faz. Finalmente o Senhor diz:
- Você não poderia trocar comigo para eu ficar perto da minha mamãe? - diz com voz e olhares débeis.
- Qual é a sua poltrona? - pergunta Doida
- É ali atrás.
Doida segue pra lá, sem dizer palavra, resmungando e pensando ter sido entendida. Ouve um "trocou, trocou?" atrás de si, vira-se e vê todos olhando fixo pra ela, sem se mover. Ela faz algum sinal, dando a entender que sim, trocou sua janela pelo ultimo corredor ao lado do banheiro pútrido e de um bebedouro que mais pra frente lhe dará um banho. 
- Espero que esse banheiro não atrapalhe a gente! - diz de repente o Marido, sentado ao lado de Doida. 
- É, probleam todo de sentar aqui atrás é esse... - responde Doida, percebendo um olhar de reprovação da Marida para seu Marido, como que dizendo: "cala a boca, senão ela vai destrocar!".
O Bus Driver se apresenta, todos se acomodam e Doida liga para Mozilla. 

CENA 3 - The Call

Doida, Mozilla, Coro: Amy Winehouse

- Mozilla, você não sabe quem eu encontrei aqui.
- Quem, Doida?
- O idiota. Com a idiotazinha.
- De quem vc tá falando, mozi??
- Daquele que me ignora na rua, Mozilla.
- Ah, tá, o que que tem?
- Se eles entrarem nesse ônibus, eu vou fazer uma besteira!
- Que besteira vc tá falando, mo?
- Não sei, só sei que vou fazer alguma coisa. - Doida sempre com a voz linear e tranquila, o coração aos pulos, trêmula.
- Amor, vc se comporta hein!
- Eu dei-lhe um esbarrão de propósito antes de entrar aqui, mo!
- Pra que, mozi? Era por isso que você tava querendo mudar de cidade, casar ... pq vc está comigo então?... já era pra você ter esquecido issso...esquece isso!!
- Não é assim!
- É assim, sim! Só pra você que não é! Me diz, quando vc quer esquecer alguma coisa, vc não esquece?
- Não, não, eu tenho memória de elefante, infelizmente -  a voz de Doida vai sumindo, banhada em lágrimas disfarçadas.
- é, é tem sim, tem mesmo... sei... ele num tá nem ai pra vc, porque vc quer caçar confusão... - e Mozilla fala coisas e mais coisas sem obter muita resposta de Doida, calada, banhada em lágrimas. Em dado momento, ela desliga.

Coro (Amy Winehouse):**

Fim do primeiro ato. Continua...
 

*trechos do Salmo 73
** dedicado à Mozilla, título sugestivo: You know I'm no good (vc sabe que não sou bacana - tradução livre).