Pular para o conteúdo principal

O Estilete


"O coração de uma mulher é um oceano cheio de segredos"
Rose, Titanic


 O ESTILETE

Prólogo: Pensei que ontem usaria pela prima vez meu estilete em carne humana. Por um segundo não foi porque não lembrei-me dele.

ATO 1
CENA 1 - O devaneio que se torna real
Personagens:
O Duas Caras
A Namovaca do Duas Caras
Doida Summer
Bus Driver
Funcionário
Conhecido
O Coro - que podem ser um bando de Tirésias, o gato de botas ou preferencialmente o gato de Alice, Lúcifer. 

CENÁRIO
Terminal Rodoviário Tietê. Doida Summer chega à Rodoviária, vai para sua plataforma e depara-se com Duas Caras e a Namovaca. Estão de costas. Doida Summer para bruscamente, suspira, segura firme a mala em riste e passa feito trator por eles. Ouve a Namovaca:

- Nossa! (voz estridente de loura-burra).

Doida segue para a fila de bagagens de baixo, pedindo desculpas às pessoas do outro lado em quem esbarrou. Olha furtivamente para trás, seu olhar se encontra com o da Namovaca-loura-burra. Doida entrega a mala ao funcionário:

- Só?
- Só - Doida diz quase sem voz, mais com a cabeça. Quando vai guardar o papelinho entregue pelo funcionário, percebe que está tremendo descontroladamente. Vai agora para a fila de entrada no ônibus, fica quase ao lado de Duas Caras e Namovaca. Cumprimenta um conhecido e se coloca na frente dele na fila. O inconsciente pede pra se afastar dos dois lá. Ao perceber o equívoco, desculpa-se:

- Opa, desculpa! - e sai, colocando-se atrás do Conhecido.
- Não, tudo bem, estou esperando um amigo... - diz o Conhecido. 

Doida então volta ao seu lugar. Ainda treme vertiginosamente. 

O gato Lúcifer - "Quanto a mim, os meus pés quase resvalaram; pouco faltou para que os meus passos escorregassem. Pois eu tinha inveja dos soberbos, ao ver a prosperidade dos ímpios...Eis que estes são ímpios; sempre em segurança, aumentam as suas riquezas. Na verdade que em vão tenho purificado o meu coração e lavado as minhas mãos na inocência, pois todo o dia tenho sido afligido, e castigado cada manhã. Se eu tivesse dito: Também falarei assim; eis que me teria havido traiçoeiramente para com a geração de teus filhos. Quando me esforçava para compreender isto, achei que era tarefa difícil para mim..." E o gatosorri, sumindo.*

Ao  deparar-se com o Bus Driver, Doida entrega as passagens. Bus Driver confere e devolve:
- Ok, tudo certo, boa viagem!
- Posso perguntar uma coisa? Suspietos podem viajar? Acho que já vi a foto deles na televisão ou em alguma delegacia e...
- O que, como? - diz o Bus Driver, meio rindo, meio querendo entender
- Suspeitos podem viajar? - Doida indica os dois - o grandalhão ali com a garota - e entra no ônibus.

CENA 2 - No ônibus
Doida
A Senhora
O Senhor
O Marido, A Marida e a Prole


Doida continua tremendo e precisa se segurar nos frágeis e pequenos corrimões da entradinha do ônibus. Ao chegar na sua poltrona 35, se depara com uma senhora e um senhor lá sentados:

- A poltrona da senhora é 35? - pergunta Doida. A senhora parece não entender, resmunga qualquer coisa. 
- Acho que a passagem da (sua) mãe está errada - diz A Marida. O Senhor confere.
- É, a minha é a 4... - e uma confusão de comentários entredentes se faz. Finalmente o Senhor diz:
- Você não poderia trocar comigo para eu ficar perto da minha mamãe? - diz com voz e olhares débeis.
- Qual é a sua poltrona? - pergunta Doida
- É ali atrás.
Doida segue pra lá, sem dizer palavra, resmungando e pensando ter sido entendida. Ouve um "trocou, trocou?" atrás de si, vira-se e vê todos olhando fixo pra ela, sem se mover. Ela faz algum sinal, dando a entender que sim, trocou sua janela pelo ultimo corredor ao lado do banheiro pútrido e de um bebedouro que mais pra frente lhe dará um banho. 
- Espero que esse banheiro não atrapalhe a gente! - diz de repente o Marido, sentado ao lado de Doida. 
- É, probleam todo de sentar aqui atrás é esse... - responde Doida, percebendo um olhar de reprovação da Marida para seu Marido, como que dizendo: "cala a boca, senão ela vai destrocar!".
O Bus Driver se apresenta, todos se acomodam e Doida liga para Mozilla. 

CENA 3 - The Call

Doida, Mozilla, Coro: Amy Winehouse

- Mozilla, você não sabe quem eu encontrei aqui.
- Quem, Doida?
- O idiota. Com a idiotazinha.
- De quem vc tá falando, mozi??
- Daquele que me ignora na rua, Mozilla.
- Ah, tá, o que que tem?
- Se eles entrarem nesse ônibus, eu vou fazer uma besteira!
- Que besteira vc tá falando, mo?
- Não sei, só sei que vou fazer alguma coisa. - Doida sempre com a voz linear e tranquila, o coração aos pulos, trêmula.
- Amor, vc se comporta hein!
- Eu dei-lhe um esbarrão de propósito antes de entrar aqui, mo!
- Pra que, mozi? Era por isso que você tava querendo mudar de cidade, casar ... pq vc está comigo então?... já era pra você ter esquecido issso...esquece isso!!
- Não é assim!
- É assim, sim! Só pra você que não é! Me diz, quando vc quer esquecer alguma coisa, vc não esquece?
- Não, não, eu tenho memória de elefante, infelizmente -  a voz de Doida vai sumindo, banhada em lágrimas disfarçadas.
- é, é tem sim, tem mesmo... sei... ele num tá nem ai pra vc, porque vc quer caçar confusão... - e Mozilla fala coisas e mais coisas sem obter muita resposta de Doida, calada, banhada em lágrimas. Em dado momento, ela desliga.

Coro (Amy Winehouse):**

Fim do primeiro ato. Continua...
 

*trechos do Salmo 73
** dedicado à Mozilla, título sugestivo: You know I'm no good (vc sabe que não sou bacana - tradução livre).

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A fase do não

Lídia tem me dito muito não ultimamente. E haja paciência para lidar com isso! Uma mulher que trabalha, tem casa, marido e uma filhinha pequena realmente tem problemas com ser paciente. Tudo que envolve ser uma boa mãe fica ameaçado quando não se pode dedicar-se à criança integralmente. E toda mãe tem, de dois, um dos sonhos: poder dedicar-se integralmente ao seu rebento ou sair para trabalhar sem sentir-se culpada. O primeiro ainda é possível de conseguir para algumas afortunadas; já o segundo... Bem vinda ao mundo da maternidade!

Bom, os nãos da Lídia só não são mais problemáticos porque sua alegria impera e nos contagia. Ainda bem que já estou de "férias" (duas semaninhas de julho) e posso acompanhar melhor a pequena com toda sua cantoria, obra da escolinha e dos videos da galinha pintadinha. Além da galinácea, no menu temos Peppa Pig, O show da Luna, Mundo Disney e por aí vai. Na festa da família na escolinha, a professora bem que tentou fazer os pequenos falarem os ver…

Personas

O top virou peça de dormir. O shortinho de academia, bem, uso em casa mesmo. A disposição pra levantar de manhã cedo e ir caminhar depois de colocar a filhotinha na van se foi, preciso dormir mais, obra do cansaço. Qualquer roupa tá bom. Me arrumar? Quando dá. Se der, deu, se não der, paciência.

Em pleno dia do rock, o dia foi pauleira mesmo. Muita prova de recuperação, aluno enchendo por causa de pontos, ter que manter a todo custo o aluno em sala de aula fazendo alguma coisa, ufs! Conselho de classe e entrega de notas foram pra agosto, thanks God! Mas o dia deixou suas marcas. Uma forte dor de cabeça me tomou desde cedo, tomei um remédio - sim, automediquei-me - e passou, mas me deixou um tanto ligada o comprimido marrom que contém cafeína.

Não tenho tempo para mim, mas tento. Estou fazendo um curso online de musicoterapia e a música é minha melhor terapia. canto mal, mas espanta mesmo os males! Não é fácil conciliar todas as personas: mulher, mãe, professora, esposa, dona de casa,…

Primeira postagem 2016

Nem me dei conta de que hoje foi sábado. Os dias aqui, para mim, passam como se fosse uma coisa só: todo dia, "nada" pra fazer - ócio criativo, talvez, apesar de que não tenho criado nada. Mas tenho visto e lido de um tudo: muitos filmes (Império, Transcendence, Mad Max, etc) e alguns livros (Conto de Natal, de Charles Dickens e sobretudo a Bíblia). Ganhei a Bíblia da Mulher e tenho me alimentado bem dela.
esqueci de pegar foto no face
Viajar pra casa dos pais é voltar ao passado infantil. É bom e mau ao mesmo tempo, nos deparamos sempre com algumas mágoas, algumas falhas, alguns concertos. Certas relações a gente não entende porque é do outro; briga, chora, grita, se enraivece e, por fim - maturidade! - aceita e toca o barco.
Tem chovido bem em Sampa. Hoje a água caiu mesmo. Minha mãe e irmã viajaram pra Goiás. E eu cá estou com a minha moreninha, esperando a boa vontade do governo estadual pra voltar pra Bh. Na verdade faremos uma ponte Viçosa-BH. É bom viajar a sós, só co…