quarta-feira, 3 de julho de 2013

Com o rei na barriga


Naquele ano o leão não tinha rugido nenhuma vez mais. As rochas pelo caminho, obstáculos, mais pareciam pedrinhas. Tinha pedrinhas de nariz em pé, pedrinhas que mal a olhavam, pedrinhas que fingiam que ela era invisível e insignificante. De repente era tão fácil descartá-las! Ainda incomodavam um pouco, mas a dor não era mais presente, havia só um quê de tristeza e lamento. Chutá-las, pois. Ela, que agora tinha mesmo o rei na barriga, se desfazia das pedrinhas como quem não quer nada e querendo tudo. Ela, a deusa dona de sua vida, mesmo sentindo que vestia um manto um pouco pesado, um pouco apertado, um pouco afobado demais: a vida era assim. Ela sentia seu rei na barriga, talvez fosse uma princesinha e nada mais importava. Era egoísmo ou altruísmo importar-se só com seu rei na barriga? Lembrava-se da dor que na juventude toda suportara, a dor da rejeição, da agonia das paixões e amores nunca recíprocos. de repente havia seu rei, a pessoinha que nem nascera e já estava lá, sendo o centro de suas atenções e seria seu eterno amor, ainda que ela não fosse o dele. O rei Davi, a princesa Lídia. Sentia que viria primeiro seu rei. Andava por ai tentando avisar aos outros de seus estado: acariciava a barriga, inchava um pouco mais pra todo mundo perceber. Ao mesmo tempo, um medo. Queria ver logo a criança, senti-la sua, em seus braços. Queria saber se era seu rei ou princesa para dar nome e forma ao que sentia, pra saber que era deusa-mãe agora. Seria deusa de seu rei, mestra de sua princesa. Não precisaria mais lembrar das pedrinhas. eram apenas pedrinhas, percalços sem memória; esquecê-las, pois. Concentrar-se em si, nele/a. Neles, porque havia o pai, havia uma mão estendida, havia o não-mais-estar-só. Era difícil não mais ter tanto controle, mas era bom sair na rua só, sentindo que era dona de si. Era deusa dona de si nesses momentos. Ouvia música no fone de ouvido e viajava. Somos todos tão felizes sem saber, a felicidade residindo exatamente nesses momentos de imaginação livre e solta, caminhar consigo, ser dono de si por dentro. Pode-se estar na cadeia ou no deserto; jantando em algum restaurante caríssimo do hotel mais caro de Dubai; comendo frango com farofa no barraco. Somos felizes se habemus imaginação, se habemus liberdade pra dentro da cabeça. Amém.