Pular para o conteúdo principal

Com o rei na barriga


Naquele ano o leão não tinha rugido nenhuma vez mais. As rochas pelo caminho, obstáculos, mais pareciam pedrinhas. Tinha pedrinhas de nariz em pé, pedrinhas que mal a olhavam, pedrinhas que fingiam que ela era invisível e insignificante. De repente era tão fácil descartá-las! Ainda incomodavam um pouco, mas a dor não era mais presente, havia só um quê de tristeza e lamento. Chutá-las, pois. Ela, que agora tinha mesmo o rei na barriga, se desfazia das pedrinhas como quem não quer nada e querendo tudo. Ela, a deusa dona de sua vida, mesmo sentindo que vestia um manto um pouco pesado, um pouco apertado, um pouco afobado demais: a vida era assim. Ela sentia seu rei na barriga, talvez fosse uma princesinha e nada mais importava. Era egoísmo ou altruísmo importar-se só com seu rei na barriga? Lembrava-se da dor que na juventude toda suportara, a dor da rejeição, da agonia das paixões e amores nunca recíprocos. de repente havia seu rei, a pessoinha que nem nascera e já estava lá, sendo o centro de suas atenções e seria seu eterno amor, ainda que ela não fosse o dele. O rei Davi, a princesa Lídia. Sentia que viria primeiro seu rei. Andava por ai tentando avisar aos outros de seus estado: acariciava a barriga, inchava um pouco mais pra todo mundo perceber. Ao mesmo tempo, um medo. Queria ver logo a criança, senti-la sua, em seus braços. Queria saber se era seu rei ou princesa para dar nome e forma ao que sentia, pra saber que era deusa-mãe agora. Seria deusa de seu rei, mestra de sua princesa. Não precisaria mais lembrar das pedrinhas. eram apenas pedrinhas, percalços sem memória; esquecê-las, pois. Concentrar-se em si, nele/a. Neles, porque havia o pai, havia uma mão estendida, havia o não-mais-estar-só. Era difícil não mais ter tanto controle, mas era bom sair na rua só, sentindo que era dona de si. Era deusa dona de si nesses momentos. Ouvia música no fone de ouvido e viajava. Somos todos tão felizes sem saber, a felicidade residindo exatamente nesses momentos de imaginação livre e solta, caminhar consigo, ser dono de si por dentro. Pode-se estar na cadeia ou no deserto; jantando em algum restaurante caríssimo do hotel mais caro de Dubai; comendo frango com farofa no barraco. Somos felizes se habemus imaginação, se habemus liberdade pra dentro da cabeça. Amém. 

Comentários

Sofia de Buteco disse…
acho que será Lídia - a principesca!

Postagens mais visitadas deste blog

A fase do não

Lídia tem me dito muito não ultimamente. E haja paciência para lidar com isso! Uma mulher que trabalha, tem casa, marido e uma filhinha pequena realmente tem problemas com ser paciente. Tudo que envolve ser uma boa mãe fica ameaçado quando não se pode dedicar-se à criança integralmente. E toda mãe tem, de dois, um dos sonhos: poder dedicar-se integralmente ao seu rebento ou sair para trabalhar sem sentir-se culpada. O primeiro ainda é possível de conseguir para algumas afortunadas; já o segundo... Bem vinda ao mundo da maternidade!

Bom, os nãos da Lídia só não são mais problemáticos porque sua alegria impera e nos contagia. Ainda bem que já estou de "férias" (duas semaninhas de julho) e posso acompanhar melhor a pequena com toda sua cantoria, obra da escolinha e dos videos da galinha pintadinha. Além da galinácea, no menu temos Peppa Pig, O show da Luna, Mundo Disney e por aí vai. Na festa da família na escolinha, a professora bem que tentou fazer os pequenos falarem os ver…

Personas

O top virou peça de dormir. O shortinho de academia, bem, uso em casa mesmo. A disposição pra levantar de manhã cedo e ir caminhar depois de colocar a filhotinha na van se foi, preciso dormir mais, obra do cansaço. Qualquer roupa tá bom. Me arrumar? Quando dá. Se der, deu, se não der, paciência.

Em pleno dia do rock, o dia foi pauleira mesmo. Muita prova de recuperação, aluno enchendo por causa de pontos, ter que manter a todo custo o aluno em sala de aula fazendo alguma coisa, ufs! Conselho de classe e entrega de notas foram pra agosto, thanks God! Mas o dia deixou suas marcas. Uma forte dor de cabeça me tomou desde cedo, tomei um remédio - sim, automediquei-me - e passou, mas me deixou um tanto ligada o comprimido marrom que contém cafeína.

Não tenho tempo para mim, mas tento. Estou fazendo um curso online de musicoterapia e a música é minha melhor terapia. canto mal, mas espanta mesmo os males! Não é fácil conciliar todas as personas: mulher, mãe, professora, esposa, dona de casa,…

Primeira postagem 2016

Nem me dei conta de que hoje foi sábado. Os dias aqui, para mim, passam como se fosse uma coisa só: todo dia, "nada" pra fazer - ócio criativo, talvez, apesar de que não tenho criado nada. Mas tenho visto e lido de um tudo: muitos filmes (Império, Transcendence, Mad Max, etc) e alguns livros (Conto de Natal, de Charles Dickens e sobretudo a Bíblia). Ganhei a Bíblia da Mulher e tenho me alimentado bem dela.
esqueci de pegar foto no face
Viajar pra casa dos pais é voltar ao passado infantil. É bom e mau ao mesmo tempo, nos deparamos sempre com algumas mágoas, algumas falhas, alguns concertos. Certas relações a gente não entende porque é do outro; briga, chora, grita, se enraivece e, por fim - maturidade! - aceita e toca o barco.
Tem chovido bem em Sampa. Hoje a água caiu mesmo. Minha mãe e irmã viajaram pra Goiás. E eu cá estou com a minha moreninha, esperando a boa vontade do governo estadual pra voltar pra Bh. Na verdade faremos uma ponte Viçosa-BH. É bom viajar a sós, só co…