segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Ser

Sejam vossos costumes sem avareza, contentando-vos com o que tendes; porque ele disse: Não te deixarei, nem te desampararei.
Hebreus 13:5

 "Sejam vossos costumes sem avareza, contentando-vos com o que tendes..." Hebreus 13:5

Queria ser capoeira, defender o morro. Ser Joana D'arc, Tiradentes, o apóstolo Paulo, morrer por uma causa. Não sei, ser alguém importante. Hoje desviei de duas pessoas, tomando cuidado pra não ser atropelada por atravessar às pressas. Depois fiquei presa do lado de fora de casa e, forçando a chave errada, ela abriu o portão. Entrei, tomei banho. No meio tempo lá fora de casa, pensamentos maus tomaram conta de mim, dando-me um certo prazer macabro, ainda em meio às músicas que ouvia. É, me conhecendo como me conheço, sei que o que me segura é a fé nEle, plena e firme. Otherwise, eu cometeria crimes e vinganças sem o menos pudor ou arrependimento. Acontece que já é crime só premeditar o negócio... Perdão, Senhor. 

A vida vai indo, à revelia. Tem um livro com um título parecido com isso, não? Gosto da palavra revelia. De amostrante também. Do "erre" paulista, aquele que parece gente do interior e o mais "apurado", digamos. Do uai e do trem, da massditumate, do sápassado, até do canto da cigarra que pra mim era bicho do meio do mato. Não que Viçosa não seja, com o devido respeito.

Um chocolate agora ia bem. Uma boa barra de chocolate branco. Me imaginava assim, chique, um dia. Sentada numa bela poltrona, num dia frio, olhando a chuvinha escorrer no vidro da minha janela, enquanto eu fumava um cigarro fino, preto e longo numa cigarreira, uma taça de vinho tinto do lado, ou mesmo uma grande chávena de chocolate quente. Uma sala abarrotada de todos os livros que eu já lera na vida, e seriam muitos. Não sei qual seria minha profissão, talvez essa mesmo, que é meu maior mérito: uma pensadora passiva, pacífica e só. Viver me assusta, apesar de já ter pego o jeito da coisa. Jogo de cintura a gente adquire e aprende a viver com a dor.

Ontem a palavra de Deus foi bela e dura, como sempre. "Contente-se com o que tens". Amém. Mas eu nunca me contento, me irrito e me debato, e é só, nada faço. Assim sou, é fato. Estou cansada, estou distante, mas é preciso atender ao sistema, ganhar dinheiro, comer, voltar, votar, enfim. Quando nas novelas acontece de algum personagem ir embora e voltar uns tantos anos depois, tenho a impressão de que ele ficou viajando, descansando, férias, só regozijando a vida mesmo. A vida real parece tão... pesada, tensa, cheia de regras. A gente podia ser assim, personagem, entrar em cena só quando fosse necessário, quando fosse pra ser feliz, quando fosse pra não ver ninguém indesejado. A gente disfarça, mas não esquece não sinhô. Mas a gente se conforta bem quando tem novos braços pra nos acalentar, apesar da doença desse mundo aumentar cada dia mais. Mundo doente. Deus seja louvado, amém.