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O amor e outras lições


A gente nem percebe, acontece. De repente já tinha uma camisa dele aqui, um boné, a mochila emprestada, o guarda-chuva igualmente emprestado em dia chuvoso, objeto quebrado... até uma cueca e escova de dentes, a minha azul, a dele branca e rosa. É, às vezes é tudo trocado que faz feliz. O simples, o dia-a-dia, a rotina, os desentendimentos e o medo de perder. O almoço compartilhado, a sobremesa, o pão de queijo de manhã e à notinha, os mimos e bobeiras de cada um, e dos dois juntos. O beijinho, o beijo, o beijão. O que faz a ligação em tudo isso sempre está, sempre é, e vai se moldando amor. 

Na verdade nem tudo está trocado, vivo o que sempre esteve em mim, talvez não muito do jeito que sonhei, com dificuldades e ... bem, o que não é difícil nessa vida? Na verdade, me pego sorrindo e sentindo uma felicidade quase que tangível, palpável e, como não acostumada a isso estou, me pego depois pensando num não-futuro, num será, num sei-lá-mais-o-quê.É tudo ainda novo, ainda fresco e saboroso, ainda temeroso, mas já temos os nossos planos e sonhos, tudo nosso.  Problemas ganham novas perspectivas, ao menos pra mim. Já não estou só e isso me conforta, me faz bem. 

Repenso tudo. Repenso minha profissão. Ás vezes parece que estou fazendo tudo errado; é aluno dizendo que num tá entendendo nada - virando pro lado e conversando enquanto eu explico - outros pedindo respostas de prova no dia da prova, outros querendo ouvri, outros nem aí... eu não grito, eu simplesmente paro, olho, espero e ainda assim tem aqueles que continuam, como se estivessem na rua, em casa, qualquer lugar menos em sala de aula, numa aula de inglês. Como eu fui diferente enquanto aluna! Claro que nunca fui 100% em todas as matérias, e também conversava um pouco, até mesmo passava cola - nunca colei! - e tal e coisa, mas eu tinha uma paixão pela escola! Aliás, não pela escola, mas por aprender, sempre estava á espera da hora em que eu saberia "tudo". Tinha e tenho sede de conhecimento, ainda que física e química nunca tivessem entrado em minha mente "brilhante". Sempre amei inglês, amo português... e vejo alunos tão apáticos, aquém de tudo, esperando que eu realize um milagre; ou aqueles ativos demais, que acham saber muito e perguntam sempre o que eu acabei de dizer; é frustrante. outro dia mesmo disse á uma turma que eu não sou papagaio pra ficar repetindo as coisas mil vezes, mas eles sempre me fazem repetir. É frustrante. Repenso. Com uma nova proposta de trabalho em mãos, talvez eu d~e um tempo de lecionar e vire pesquisadora, um olhar de fora seria bom, quem sabe, mas quero manter ao menos uma turma, até sei qual, a mais desafiadora, a mais hiperativa, enfim... Tenho cometido erros, sim; tenho falado muito português, explicado gramática demais, aulas chatas, etc, etc. Preciso repensar minha prática, onde está a inovação que vi na academia pra poder aplicar? o que me impede de aplicar? medo, vergonha? Não sei, estou em processo, sou sempre operário em construção. 

Tudo acontece. Nos ligamos, combinamos horário, damos abraços e beijos no meio da rua, rimos feito bobos. É ótimo, mas nunca me expresso do jeito que queria, e parece que todo mundo é meio contra. porque amigo de verdade suporta amigo apaixonado. Eu menti, amor: disse aos amigos que estava me acostumando quando, de verdade, amo você desde o início. Boa noite!

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