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Balada do amor


Com amor não se brinca, ele não é bobo; percebe logo se está sendo só usado, mero tapa-buraco de outrem, de outro amor. E quando bobo assim não se mostra pra mim, tenho a certeza da escolha certa. Às vezes a decisão amorosa nossa de cada da é puramente racional, com preenchimentos emocionais: leva o troféu quem te faz rir, tem paciência pra te aturar de TPM, humor instável e até coração longe, já flechado por alguém que foi lá e arrancou a flecha, sem dó nem piedade. A marca fica, pra sempre, que nem aquela da primeira injeção no braço, que todo mundo tem. Não temos a lembrança sequer, mas fica a marca eternamente. 

A decisão de deixar coisas pra trás já tomei, mas tem hora que a gente tem que ser mais claro, falar isso com todas as letras, demonstrar no dia a dia. E quando o amor cobra, você se depara com uma pessoa que é você mas não do jeito que você se vê. E como o outro te vê é incontrolável, você não tem poder sobre essa pessoa que é o reflexo de sua imagem; algo que você passa aos outros intencional ou não intencionalmente. Ele me vê como tudo que quer, tudo que precisa. Eu o vejo como a escolha mais certa. Nas escolhas e decisões racionais mora o amor?

Meu coração ainda dança na balada de um amor inabalável que nunca existiu. Recusa-se a ver a realidade que não tem nada de conto de fada, mas pode ser feliz. Tem sempre essa parte da gente que teima em ficar na dor, lembrando de coisas que poderiam ter sido mas nunca foram. Talvez tenha gente que não tem essa parte, ou que a supere mais facilmente, mas pra mim é o pesadelo, sintoma típico de distimia, a preocupação exagerada com o sentido da vida - e coisas relacionadas a ela. Vítimas de nós mesmos, é preciso um esforço sobrehumano pra dar um passinho que seja à frente, na direção da superação, do overcome, e uma ajuda exterior pode ser crucial, como um amor. Nesse sentido sim, nada melhor do que um novo pra esquecer o antigo. Mas esquecer é palavra abstrata, que não se dá.O interiro, sobretudo, deve estar fortalecido. Aí é que está...

Sinto esse esforço sobrehumano que faço todos os dias me exaurindo as forças. Ultimamente tenho tido uma sensação uterina e paradisíaca ao deitar-me na cama: é como se voltasse ao útero materno, onde estava completamente bem, sem em absoluto precisar chorar, gritar, espernear pra conseguir coisas, ou mesmo sentir dor; estava em perfeito estado, no melhor lugar que alguém pode estar. Deito e as cobertas que me coloco dão a temperatura perfeita, um aquecimento que me acaricia a alma e me adormece, levando-me ao espaço do sonho, o mais democrático de todos. 

Sinto-me Clarice Lispector também em alguns momentos. Tenho a impressão nítida de que Clarice ficava assim como eu, sentada em algum lugar, olhando horas, segundos ou minutos para um ponto fixo sem pensar em muita coisa útil. E assim escrevia. Não que o que ela escrevia fosse ou seja inútil, mas é um revelar de alma, uma coisa tão dela que beira uma biografia, beira o absurdo de ser alguém. E ela se encontrava nesse absurdo e por vezes se fechava nele. Encontra-se pouca entrevista com Clarice e nas que deu, ela era vaga, ou vagotônica, como diria Vinícius de Morais. Nessa minha fase pós-derrota mestrística, estou pura poesia, ainda que escrevendo em prosa por aqui. Clarice se fechava mas tinha essa vontade doida que temos de nos mostrar, portanto os livros. E eu, portanto o blog e as poesias no RecantodasLetras.

O amor tem me inspirado. Essa nova faceta dele, de ser calmo, de ser racional, de ser decisão e não mais tanto o corpo e o coração são nitroglicerina pura, novidade pra mim, que andava com ela no sol, sem proteção; pelo menos em um filme que vi, não se pode expor a nitro ao sol, ela explode. Já explodiu tanto comigo e fez tanto estrago que cansei. Amor é decisão, é conquista. Amor é tempo também, meu bem...

Aos apressados e necessitados, uma coisa: "toque a balada, seja antes ou depois, eterna love song de nós dois...". Boa noite!

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