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Quarta-feira Mara


Tirou a quarta-feira para si. Não foi à aula. Chamava-se Mara, talvez... amarga. A vida lhe fizera amarga, sempre pensara assim. Mas de uns tempos pra cá, à beira dos trinta, não era bem assim: a amargura ou amarguez tinha algo de inato nela. Precisava de tratamento. Apesar disso, tomou a noite da quarta-feira nas mãos: um banho bom, depilação inteira... olhou a gilette velha pendurada e pensou: "Não... tudo novo hoje, já!" e jogou fora, pegando a nova. pernas, virilha até e... por que tinha que tirar os pêlos se, pelas muitas leituras feministas que andara fazendo, sabia que a mulher é dona de si? por que tirar o que nasce naturalmente em si? Por que lutar contra o corpo? Feminista, mas achava demais homens e mulheres trans... jamais agrediria o próprio corpo dessa forma, mas tentava entender como eles deviam se sentir deslocados dentro de si... e não entendia. Mas tirou os pêlos, ao menos os mais visíveis. Passou óleo corporal, lixou o calcanhar, sentiu seu corpo, mulher, era mulher, ela é mulher. Dona de si como ninguém mais o seria. Hidratante nas pernas e braços, rosto e colo tonificados e limpos com um antiidade, porque já estava lá, Balzac.

Filme. Descobrira, no dia anterior, um filme salvo em seu computador, nem sabia de onde. Começara a vê-lo, mas seria hoje, na quarta, que iria saboreá-lo todo. Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Ouvira sempre boas críticas sobre o tal filme, ansiava vê-lo: teria pipoca e sua própria companhia. Tinha alguém, ele estava na casa dele, chuvinha boa, se encontrariam na quinta. O sentimento de pertença lhe bastava, podia curtir a quarta-feira toda consigo, toda sua. Andava nervosa, seria melhor assim.

Foi ver um seriado, antes. José do Egito, a história bíblica do rapaz vendido pelos irmãos que se torna governador do Egito antigo. Viu. Conversou com a sua pessoa no msn. Às vezes é preciso abrir o jogo. ou, às vezes é preciso sempre abrir o jogo. Abriu o jogo, viu as cartas, nada parecia favorável. Mas era quarta-feira. Isso bastava. era sua. 

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