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Incinta


Não sou do tipo desapegada, nem agora que sou/estou mãe: ainda tenho meus sentimentos e sonhos individuais, independentes do bebê, que agora estão guardados, adiados, não esquecidos. Doídos, ainda mais o de ir ao exterior. tem um amigo que vai pela segunda vez. Não sei, para algumas pessoas, parece tao fácil. Eu tenho os meus contras pra ir: idade, grana e agora, my baby. Estou vivendo tomando conta da alimentação e de tudo mais por ele/a, mas não penso em deixar tudo pra lá pra que ele/a realize os próprios sonhos. Ele/a vai realizá-los, estarei aqui sempre, mas não gosto da ideia de me anular, como minha mãe o fez. Ela queria ser missionária e professora e, por mais que eu, sua filha, seja agora professora, não é a mesma coisa. Ela se emocionou na minha formatura, ficou feliz comigo. Não sei se ela ficou assim, mas eu ficaria pensando que poderia ser eu. Não gosto da ideia de anulação em prol do outro porque já fiz muito isso e, ainda que não declaremos abertamente, esperamos algo em troca que nem sempre vem. Aí a frustração é grande. Estou nessa de horror agora, pensando em fazer tudo pelo meu/minha filho/a  e aguardar que ele/a ao menos seja agradecido e... esperar o melhor dos outros é temerário. Além de ter aprendido a ser uma profissional reflexiva, tenho sido uma mãe reflexiva, ainda que involuntariamente. E a intuição está se afiando, só preciso dar mais ouvidos a ela, como (não) aconteceu ontem. Antes de sair de casa, ainda de manhã cedo, pensei em levar o meu cartão de gestante. Mas não levei e à noite precisei dele porque o namorido foi me buscar, aí contei que o bebê não tinha mexido desde a noite anterior e fomos ao hospital. Baby costuma mexer bastante e ficamos preocupados, mas estava tudo bem. Agora é partir para o próximo ultrassom, que é o morfológico e precisa ser feito logo. Acaba que marcamos no particular. Casar e ter filhos é coisa das mais caras. E quando a gente é meio que empurrado a isso, não tem muito como fugir. O médico me deu dois dias de atestado pra repousar, mas parece que não é muito isso que farei. Agora sei pelo que minha mãe passou quando me esperou pelos nove meses - e eu quase fiquei mais. Sinto muitas dores nas costas, na coluna, desânimo, cansaço. Tenho estado sem inspiração, o poema me foge, as palavras não vêm. O/A bebê puxa bem minhas energias e atenção e eu tenho sentimentos confusos, dúbios. Ontem ouvi o coraçãozinho dele/a de novo e nesses momentos é que percebo realmente que estou grávida. Pregnant. Embarazada. Schwanger. Incinta. Gravide. 
O que me impressiona mais é que mantenho todos os meus gostos, menos por doces: sou uma formiga desde o nascimento mas atualmente não tenho dado muita importância a doces. Gostos mantidos são os estresses do passado, o musical, a minha adolescência sempre tardia onde me refugio. Todos temos e temos que ter um lugar de refúgio, lugar concreto, lugar mental, um lugar qualquer. Um lugar pra fugir de si mesmo, do dia a dia, dos sentimentos que nunca passam, ainda que o tempo passe. Bom dia. 

Comentários

Vanessa Santos disse…
Precisamos de um teto todo nosso! Seja abstrato ou concreto.
Me faz uma visita?
http://mardeletras2010.blogspot.com.br/2013/07/ceu-e-inferno-na-terra-do-sol.html?showComment=1375371034376#c2303677668888386570

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