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Mix e Medos


Não sentia saudades, era fria. Com a filha ainda no ventre, imaginava-a já longe de si, na faculdade, curtindo as porralouquices da vida. u mesmo querendo entrar para um convento. Sendo (in)feliz no amor? Não sabia, mas imaginava já muitas coisas para a pequena. Com tantas perdas - maior parte emocionais - não podia afirmar que não tinha nada, tampouco que tinha tudo. era melhor se conformar com muita coisa. O dia a dia mata às vezes e se renova. É preciso ser máquina. Olhava para o marido e via-o tão assim romântico. Era fria, sempre fora. Sabia que tal frieza vinha do pai. Genética. Tinha medo e orgulho ao pensar na filha assim também, fria e altiva. Ah, não. Sofrer como ela já sofrera é pra poucos.
Nunca fora fã de ninguém. Na adolescência tentara ser fã do Westlife, do *NSync, dos BSB, foi um pouco do Hanson, de quem gostava ainda até hoje. Mas quando chamava um ou outro de marido como o faziam as meninas bobinhas e fúteis, sentia-se ridícula. Parou de se entupir de revistas adolescentes, não lhe traziam nada, só a mera constatação que não era da classe média e não poderia ter aquelas roupas, aquelas makes, fazer aquelas viagens, chegar em meninos. Meninos? Eram utopia. Quando já em fase adulta-ainda-meio-teen, meninos-homens tornaram-se decepção. Mas como aprender que fogo queima sem por a mão nele? Imaginava sua menina também se queimando por aí e sentia-se já impotente por nada poder fazer a não ser aconselhar. Ela ouviria? Seria firme e feminista? Seria bobinha meio amélia? Seria meio termo, nem lá nem cá, talvez um pouco medrosa? Se casaria? Seria homo, hetero? teria filhos? Seriam amigas? Tocaria um instrumento, cantaria, dançaria? Seria esportista, atleta? tantas coisas, tantas questões.  
Pensava em colocá-la no ballet, na defesa pessoal, nas aulas de piano... ela saberia inglês em casa, privilegiada. Não perderia a chance de viajar para o exterior. Seria, enfim, uma versão melhorada dela, da mãe. Ou não. Ah, seria, enfim, uma outra pessoa, ponto. Porque superar perdas e danos compete a nós mesmos, e não aos filhos.
Na noite anterior, a bebê começara aqueles movimentos suaves novamente, como se passasse o pezinho ou mãozinha na barriga, por dentro, retribuindo o carinho da mãe e do pai. Muitas vezes também, mexia-se bem no baixo ventre, como se preparando para conhecer logo esse mundo. Pra que a pressa, honey? É tudo tão mal, mas é tudo tão bom ao mesmo tempo. God bless you a lot. Bye.  

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